A primeira vez que o vi, ele estava sentado em um galho de goiabeira, plantada próxima a estrada de terra que ligava a vila a área rural, poucos metros depois da ponte de madeira, que rangia um rangido tristonho quando alguém passava - como um lamento de uma mulher solteira de meia idade. A árvore sustentáva-o com dificuldade, já que Samuel sempre foi obeso. Eu quase não o notei, assim como muitos dos que por ali passaram não devem tê-lo notado. A única razão para tê-lo enxergado foi uma preguiça súbita, que me atraiu ao pé da goiabeira, com a itenção de sentar-me à sua sombra. Eu acabara de sair da escola, dirigindo-me para casa à pé, como de costume, irritado por saber que teria de tratar dos porcos e cavalos quando chegasse ao sítio que morava com meus tios, onde éramos caseiros.
Cheguei-me a goiabeira vagarosamente, com minha mochila surrada as costas e minha pasta de desenhos a mão direita. Notei a silhueta rechonchuda de Samuel contra o sol, sendo a primeira coisa que discerni foi sua boca enorme e aberta, que mastigava animalescamente um goiba madura, escorrendo sumo vermelho, que deslizava lentamente dos lábios grossos e pesados até o pescoço, umidecendo a camisa xadrez branca e azul. O nariz redondo, parecia uma batata reçém colhida, oleoso - como toda pele dele - brilhando ao sol do meio dia; os braços roliços, grossos e flácidos; pés descalços e imundos, com unhas horrendas. Samuel, embora filho de pai branco - descendente de portugueses - puxou a pele escura da mãe, uma mulher triste e negra como o rio que dividia nosso distrito (sendo que sua história terminou de maneira muito trágica).
Fiquei estufepato com aquela visão, como quem encara uma criatura lendária e folclórica; ele me fitou com olhos arregalados e disse, cuspindo pedaços de goiaba: O que é isso que você tem aí embaixo do braço?

Estou gostando da galeria de imagens aqui ao lado...é como um passeio por um museu humanista, talvez.
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